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Rescisão Paga Após 10 Dias? Entenda a Multa do Art. 477 da CLT

Você foi desligado da empresa, assinou os papéis e ficou esperando o dinheiro da rescisão cair na conta. Os dias passaram, chegou o décimo dia e nada. Quando o pagamento finalmente apareceu, já tinha passado o prazo. Essa situação é muito m…

Rescisão Paga Após 10 Dias? Entenda a Multa do Art. 477 da CLT — Gonçalves e Rodrigues Advogados

Resumo rápido

Você foi desligado da empresa, assinou os papéis e ficou esperando o dinheiro da rescisão cair na conta. Os dias passaram, chegou o décimo dia e nada. Quando o pagamento finalmente apareceu, já tinha passado o prazo. Essa situação é muito m…

Neste artigo


Você foi desligado da empresa, assinou os papéis e ficou esperando o dinheiro da rescisão cair na conta. Os dias passaram, chegou o décimo dia e nada. Quando o pagamento finalmente apareceu, já tinha passado o prazo. Essa situação é muito mais comum do que parece, e muitos trabalhadores não sabem que ela pode gerar um direito extra.

A lei trabalhista estabelece um prazo para a empresa pagar a rescisão e entregar os documentos do desligamento. Quando esse prazo não é respeitado, entra em cena a multa do art. 477 da CLT, uma indenização paga diretamente ao trabalhador.

Neste guia, você vai entender de forma simples como contar o prazo de 10 dias, quanto vale a multa, em quais situações ela se aplica e o que fazer se a sua rescisão foi paga com atraso. Tudo explicado sem juridiquês, com exemplos práticos.

O que diz o artigo 477 da CLT sobre o prazo da rescisão

O artigo 477 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) é a regra que organiza o fim do contrato de trabalho. Ele define o que a empresa deve fazer quando o vínculo termina e, principalmente, em quanto tempo ela deve fazer.

O trecho mais importante para o nosso tema está no parágrafo 6 do artigo:

"A entrega ao empregado de documentos que comprovem a comunicação da extinção contratual aos órgãos competentes bem como o pagamento dos valores constantes do instrumento de rescisão ou recibo de quitação deverão ser efetuados até dez dias contados a partir do término do contrato." (CLT, art. 477, parágrafo 6)

Você pode consultar o texto completo da lei no site oficial do Planalto.

Em palavras simples: a empresa tem até 10 dias, contados do fim do contrato, para fazer duas coisas. A primeira é pagar todas as verbas rescisórias. A segunda é entregar os documentos que comprovam que o desligamento foi comunicado aos órgãos oficiais.

Como contar o prazo de 10 dias da rescisão

Saber contar o prazo corretamente é o primeiro passo para descobrir se você tem direito à multa. Parece simples, mas existem detalhes que fazem toda a diferença.

A regra básica de contagem

O Tribunal Superior do Trabalho (TST) tem uma orientação específica sobre isso, a Orientação Jurisprudencial 162 da SDI-1. Segundo esse entendimento, na contagem do prazo exclui-se o dia do início e inclui-se o dia do vencimento, seguindo a regra do Código Civil.

Na prática, funciona assim:

  • O dia em que o contrato terminou não entra na conta.
  • A contagem começa no dia seguinte ao término.
  • Os dias são corridos, ou seja, sábados, domingos e feriados também contam.
  • O décimo dia é o último dia para a empresa pagar.

Quando o aviso prévio é trabalhado

Se você cumpriu o aviso prévio trabalhando, o contrato termina no último dia trabalhado. É a partir do dia seguinte que os 10 dias começam a correr.

Quando o aviso prévio é indenizado

Quando a empresa dispensa o trabalhador de cumprir o aviso e paga esse período em dinheiro, o entendimento predominante é que o prazo de 10 dias conta a partir da data em que o desligamento foi comunicado, e não do fim da projeção do aviso.

Isso costuma confundir muita gente, porque o aviso prévio indenizado é projetado na carteira de trabalho para outros fins, como o tempo de serviço. Mas, para o pagamento da rescisão, o relógio começa a correr logo após a comunicação da dispensa.

E se o décimo dia cair em fim de semana ou feriado?

Esse é um ponto que ainda gera divergência nos tribunais. Como o prazo é contado em dias corridos, parte das decisões entende que o vencimento em fim de semana ou feriado não adia a data. Outras decisões aceitam o pagamento no primeiro dia útil seguinte.

Por isso, cada caso precisa ser analisado com cuidado. Se o pagamento caiu exatamente no dia útil seguinte a um vencimento em feriado, vale buscar uma orientação antes de concluir que existe direito à multa.

Exemplo prático de contagem

Imagine que Carlos foi dispensado sem justa causa, com aviso prévio indenizado, e recebeu a comunicação no dia 2 de setembro. Veja como fica a contagem:

  1. Dia 2 de setembro: data da comunicação (não conta).
  2. Dia 3 de setembro: primeiro dia do prazo.
  3. Dia 12 de setembro: décimo dia, último dia para pagamento.
  4. Se o dinheiro só estiver disponível na conta de Carlos no dia 13 ou depois, houve atraso.

O que é a multa do artigo 477 e quanto ela vale

A multa do art. 477 é uma penalidade aplicada à empresa que não cumpre o prazo de 10 dias. Ela está prevista no parágrafo 8 do mesmo artigo:

"A inobservância do disposto no parágrafo 6 deste artigo sujeitará o infrator à multa de 160 BTN, por trabalhador, bem assim ao pagamento da multa a favor do empregado, em valor equivalente ao seu salário, devidamente corrigido pelo índice de variação do BTN, salvo quando, comprovadamente, o trabalhador der causa à mora." (CLT, art. 477, parágrafo 8)

Esse texto traz, na verdade, duas multas diferentes. É importante entender cada uma delas.

A multa paga ao trabalhador: um salário

A primeira é a multa que vai para o seu bolso. O valor é equivalente a um salário do trabalhador. Se você ganhava 3.000 reais por mês, a multa será de 3.000 reais, com a devida correção.

Essa é a multa que o trabalhador pode cobrar da empresa, de forma amigável ou na Justiça do Trabalho.

A multa administrativa: paga ao governo

A segunda é uma multa administrativa, aplicada pela fiscalização do trabalho. Ela é cobrada da empresa por trabalhador prejudicado, mas não vai para o empregado. Ela existe para punir a empresa e desestimular o descumprimento da lei.

A multa não aumenta com os dias de atraso

Muita gente pensa que a multa cresce a cada dia de atraso, mas não é assim. O valor é fixo: um salário, tanto para um atraso de um dia quanto para um atraso de dois meses.

Isso significa que até um único dia de atraso já pode gerar o direito à multa completa. Por outro lado, um atraso muito longo não multiplica o valor, embora possa trazer outras consequências, como juros e correção sobre as verbas atrasadas.

Qual salário serve de base para o cálculo

A lei fala em "valor equivalente ao seu salário". Em geral, a Justiça do Trabalho considera o salário contratual do trabalhador, ou seja, o valor fixo mensal combinado no contrato.

Para quem recebe salário variável, como comissionistas, costuma-se usar uma média dos valores recebidos. Parcelas que não têm natureza de salário, como reembolsos e algumas ajudas de custo, normalmente ficam de fora da base de cálculo.

Em quais tipos de rescisão a multa do art. 477 se aplica

Uma dúvida frequente é se a multa vale apenas para quem foi demitido. A resposta é não. O prazo de 10 dias vale para praticamente todas as formas de encerramento do contrato, incluindo:

  • Demissão sem justa causa: o caso mais comum.
  • Pedido de demissão: mesmo quando o trabalhador pede para sair, a empresa precisa pagar no prazo.
  • Demissão por justa causa: as verbas que restam, como saldo de salário e férias vencidas, também têm prazo.
  • Rescisão por acordo: a modalidade criada pela reforma no artigo 484-A da CLT também segue o prazo de 10 dias.
  • Fim do contrato de experiência ou por prazo determinado: o término natural do contrato também exige pagamento no prazo.
  • Rescisão indireta: quando a Justiça reconhece que a empresa cometeu falta grave e o trabalhador pôde romper o contrato.

Se você não sabe em qual dessas situações o seu caso se encaixa, converse com um advogado trabalhista para entender quais prazos e direitos se aplicam ao seu desligamento.

Situações especiais que geram dúvidas

Nem todo caso é simples. Existem situações em que a aplicação da multa depende de detalhes específicos ou do entendimento dos tribunais. Veja as mais comuns.

Atraso apenas na entrega dos documentos

Depois da reforma, o parágrafo 6 passou a incluir no mesmo prazo a entrega dos documentos que comprovam a comunicação do desligamento, como os necessários para sacar o FGTS e pedir o seguro-desemprego.

Por isso, existem decisões que aplicam a multa quando a empresa paga em dia, mas entrega os documentos com atraso. O tema, no entanto, ainda é debatido e o resultado pode variar conforme o tribunal e as circunstâncias do caso.

Empresa em falência ou em recuperação judicial

Quando a empresa tem a falência decretada, a situação muda. Pela Súmula 388 do TST, a massa falida não está sujeita à multa do art. 477, porque perde a livre administração dos seus bens.

Já a empresa em recuperação judicial continua funcionando e administrando seu patrimônio. Por isso, o entendimento predominante é que ela continua sujeita à multa se atrasar a rescisão.

Empregado doméstico

A lei dos empregados domésticos, a Lei Complementar 150/2015, determina a aplicação da CLT no que ela não tratar de forma diferente. Com base nisso, a Justiça do Trabalho tem aplicado o prazo de 10 dias e a multa do art. 477 também às rescisões de domésticos.

Quando o próprio trabalhador causa o atraso

A lei afasta a multa quando, comprovadamente, o trabalhador foi o responsável pelo atraso. Isso pode acontecer, por exemplo, quando ele não informa os dados bancários, não comparece para receber ou se recusa a receber os valores.

Atenção: cabe à empresa provar que o atraso foi culpa do trabalhador. Se ela não tiver como demonstrar isso, a multa continua devida. Quando o trabalhador se recusa a receber, a empresa pode, inclusive, depositar os valores em juízo para evitar a penalidade.

Qual o prazo para cobrar a multa do art. 477

Esse ponto merece muita atenção. O trabalhador tem até 2 anos após o fim do contrato para entrar com uma ação na Justiça do Trabalho. Essa regra está no artigo 7, inciso XXIX, da Constituição Federal e no artigo 11 da CLT.

Passado esse prazo, ocorre a chamada prescrição, e o direito de cobrar a multa, e as demais verbas, se perde. Por isso, não vale a pena deixar para depois.

Além disso, quanto mais tempo passa, mais difícil fica reunir provas, encontrar extratos antigos e lembrar das datas. Agir cedo protege seus direitos.

Perguntas frequentes sobre a multa do art. 477

A empresa pagou a rescisão um dia depois do prazo. Tenho direito à multa?

Sim, em regra. A multa do art. 477 é devida mesmo com um único dia de atraso, e o valor é o mesmo: um salário. A exceção ocorre quando a empresa comprova que o atraso foi causado pelo próprio trabalhador, ou em casos específicos, como o vencimento em feriado, que ainda geram divergência nos tribunais.


O prazo de 10 dias é contado em dias úteis ou corridos?

Em dias corridos. Sábados, domingos e feriados entram na contagem. O dia do término do contrato não conta, e o prazo começa no dia seguinte.


Pedi demissão. A empresa também tem que pagar em 10 dias?

Sim. O prazo de 10 dias vale para todas as formas de desligamento, inclusive o pedido de demissão. Se a empresa atrasar, a multa também pode ser cobrada.


Fui demitido por justa causa. Posso receber a multa do art. 477?

Pode. Mesmo na justa causa, o trabalhador tem verbas a receber, como saldo de salário e férias vencidas com o adicional de um terço. Se elas forem pagas depois dos 10 dias, a multa é devida.


A multa do art. 477 vai para mim ou para o governo?

Existem duas multas. A multa equivalente a um salário vai para o trabalhador. A multa administrativa, aplicada pela fiscalização do trabalho, vai para os cofres públicos e não é paga ao empregado.


A empresa pagou no prazo, mas faltou uma verba. Cabe a multa?

Na maioria das decisões do TST, não. O pagamento a menor dentro do prazo não gera, sozinho, a multa do art. 477. Porém, as diferenças que faltaram podem ser cobradas, com juros e correção.


Recebi o dinheiro em dia, mas as guias do FGTS vieram atrasadas. E agora?

Depois da Reforma Trabalhista, a entrega dos documentos passou a ter o mesmo prazo de 10 dias. Há decisões que aplicam a multa nesse caso, mas o tema ainda é debatido. Vale analisar as circunstâncias com um advogado.


A multa do art. 477 aumenta conforme o tempo de atraso?

Não. O valor é fixo, equivalente a um salário, independentemente de o atraso ser de um dia ou de vários meses. As verbas atrasadas, porém, devem ser pagas com correção e juros.


Assinei o Termo de Rescisão. Ainda posso cobrar a multa?

Depende. Dependendo da situação pode ou não. É necessário análise de um advogado de sua confiança.


Trabalhei sem carteira assinada. Posso pedir a multa do art. 477?

Pode. Segundo a Súmula 462 do TST, se a Justiça reconhecer o vínculo de emprego, a multa é devida mesmo que a empresa nunca tenha formalizado o contrato.


Qual o prazo para cobrar a multa na Justiça?

O trabalhador tem até 2 anos após o fim do contrato para entrar com a ação trabalhista. Depois desse prazo, o direito de cobrar prescreve.


Empregada doméstica também tem direito à multa do art. 477?

A Justiça do Trabalho tem aplicado a multa também aos empregados domésticos, já que a lei dos domésticos manda aplicar a CLT naquilo que não for regulado de forma diferente.


Resumo: o que você precisa lembrar

A empresa tem até 10 dias corridos, contados do dia seguinte ao fim do contrato, para pagar a rescisão e entregar os documentos do desligamento. Essa regra vale para todas as formas de saída, do pedido de demissão à justa causa.

Se o prazo não for cumprido, o trabalhador pode ter direito à multa do art. 477 da CLT, no valor de um salário, mesmo que o atraso seja de apenas um dia. A multa só deixa de ser devida em situações específicas, como falência ou quando o próprio trabalhador comprovadamente causou o atraso.

Para não perder esse direito, anote as datas, guarde os comprovantes e fique atento ao prazo de 2 anos para buscar a Justiça do Trabalho. Conhecer as regras é a melhor forma de garantir que o fim do contrato aconteça de forma correta e justa.

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